10# CULTURA 25.12.13

     10#1 MISSIONRIO DA CULTURA
     10#2 LIVROS - LICENA PARA ESPIONAR
     10#3 OS FILMES QUE VOC NUNCA VER
     10#4 EM CARTAZ  DVD - UMA IMERSO EM "BREAKING BAD"
     10#5 EM CARTAZ  LIVROS - FUTURO RECENTE
     10#6 EM CARTAZ  ARTE - BANANAS PARA DAR E VENDER
     10#7 EM CARTAZ  MSICA - UM DISCO MUITO CHIC
     10#8 EM CARTAZ  AGENDA - YAYOI KUSAMA/VERSO/MAURICE PIALAT
     10#9 ARTES VISUAIS - O PERCURSO DOS SIGNOS
     10#10 ARTES VISUAIS  ESTANTE - O BUZINAO

10#1 MISSIONRIO DA CULTURA
Dono de uma verba de R$ 1,6 bilho, a maior destinada ao setor no Pas, Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc de So Paulo, transformou a entidade num exemplo de excelncia e democratizao de acesso a bens culturais
Ana Weiss

Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Servio Social de Comrcio de So Paulo (Sesc-SP), queria ser padre. Para sorte da cultura nacional, desistiu do projeto trazido da infncia, ao ficar rfo de me, em Campos, no Rio de Janeiro, e seguir os passos do irmo mais velho na Ordem Jesuta. Eu me achava um religioso exemplar. E tinha bem claro que estava recebendo o melhor tipo de formao que existia naquele tempo, diz Miranda, hoje um dos maiores gestores culturais do Pas. A educao e o acesso  cultura assumiram a diretriz da minha vida ali. E est em tudo que conduzo hoje no Sesc. Muito prximo das Juventudes Catlicas, Santos de Miranda cedeu aos ventos revolucionrios dos anos 1960  ele estava no meio de um voto de silncio de 30 dias quando soube do golpe  e deixou os estudos clericais para conhecer o mundo l fora. No sabia preencher um recibo. Nunca tinha lidado com dinheiro.Vivia num ambiente onde se ouvia Debussy, se lia Kierkegaard e, quando se precisava de qualquer coisa, bastava ir at a coisa e pegar. 

O desafio de aprender a lidar com o dinheiro levou o ex-novio a prestar o concurso no Sesc, onde desenhou uma carreira luminosa. H 30 anos  frente da instituio, o homem com o maior oramento destinado  cultura hoje no Pas  1,6 bilho, que o MinC s ultrapassa usando as leis de incentivo  recebe os que o procuram (o pensador italiano Domenico De Masi, o filsofo francs Edgar Morin ou a equipe de reportagem da ISTO) na mesma sala de um complexo de lazer e atividades culturais gratuitas incrustado na zona leste de So Paulo, o Sesc Belenzinho, uma das 34 unidades da instituio no Estado. O antigo escritrio, na avenida Paulista, est sendo reformado para atender o pblico, porque, para ele, no faria sentido usar uma rea to nobre e acessvel da cidade apenas para deliberar.

Hoje, Santos de Miranda  chamado para dar palestras sobre gesto cultural em todo mundo.  conselheiro da Fundao Ita Cultural, da Fundao Padre Anchieta e  do Museu de Arte Moderna de So Paulo. No Exterior,  membro da Art for the World, com sede na Sua. Ao participar da Bienal de Denver este ano, a direo teve de achar tradutor simultneo s pressas, pois Santos de Miranda decidira discursar sobre as questes dos pases do Sul em uma lngua do Sul, o portugus. O que todos queriam saber sobre os segredos da programao de cursos e espetculos do Sesc, citado pelo jornal The New York Times como um exemplo a ser seguido pelos pases europeus em crise? A frmula, claro. Mens sana in corpore sano, como aprendeu na escola jesuta. No restringimos o pensamento cultural s atividades artsticas. Por isso o esporte e a alimentao se tornaram modelos cruzados com as aes de arte e formao, diz o executivo, que participou da criao do projeto do Fome Zero e foi vice-presidente do ICSW  Conselho Internacional de Bem-Estar Social de 2008 a 2010.

Sob a sua administrao o Sesc ganhou o apelido de nosso verdadeiro Ministrio da Cultura porque, na prtica, cumpre parte do que se espera do governo de oferta cultural acessvel (com ingressos gratuitos ou a preos simblicos). No ano passado, s no Estado de So Paulo, a instituio realizou cerca de 20 mil apresentaes, entre espetculos teatrais, de dana, de msica e exibies de cinema. E o detalhe  que nenhum teatro ou galeria do Sesc fica a dever aos aparelhos culturais pblicos do Estado. Pelo contrrio, so todos excelentes espaos de fruio cultural, para quem tiver pacincia de enfrentar a fila pelos ingressos (inclusive online). Esse  outro item importante: as entradas se esgotam rpido, no s pelos preos, mas tambm pela qualidade artstica de sua oferta, com grande apoio para a produo nacional, o que tambm sempre se espera da cultura pblica.

Em 2011, na primeira crise da ex-ministra Ana de Hollanda, a Casa Civil recebeu um abaixo-assinado organizado por Fernanda Montenegro que comeava com o seguinte texto:  Um sonho acalentado por muitos artistas e produtores culturais brasileiros  o de ter no Ministrio da Cultura um grande gestor com experincia na rea. Santos de Miranda desconversa: Nunca recebi tal convite, nem pretendo me candidatar a esse cargo. Entendo o desejo de que a poltica de alcance social que construmos no Sesc se estenda para o cenrio pblico do Pas, mas so situaes muito diferentes. De fato,  tudo bem diferente. A comear pelo oramento. O Sesc vive de uma determinao da primeira metade do sculo passado, segundo a qual 1,5 % de toda a folha de pagamento das empresas de servios e comrcio se destina  instituio. No ano passado, foram pouco menos de R$ 1,5 bilho, dos quais, R$ 200 milhes absorvidos diretamente por espetculos. Mas no esto contados a os investimentos como infraestrutura, ampliao e criao de novas unidades, a manuteno e a mo de obra para a realizao de apresentaes, diz ele, cuja viso de cultura  to vasta quanto a verba que hoje sabe distribuir com senso jesutico.]


10#2 LIVROS - LICENA PARA ESPIONAR
John le Carr lana romance sobre o antiterrorismo e nova edio de "O Espio que Saiu do Frio" com texto indito no qual deixa claro que as relaes internacionais s pioraram depois do fim da Guerra Fria 
Ana Weiss

John le Carr passou 50 anos negando ser o agente do ttulo de O Espio que Saiu do Frio. Tinha raiva da imprensa, que ajudou o romance a se tornar best-seller numa questo de meses (o ano era 1963 e os livros da moda no se alastravam com a velocidade de hoje), propagando a fantasia de que a saga de Alec Leamas era uma forma de denncia das verdadeiras e corrompidas entranhas do Servio Secreto internacional. Le Carr, nascido David John Moore Cornwell, de fato era um oficial da Inteligncia Militar do Servio Secreto Britnico disfarado de diplomata principiante na embaixada de Bonn, na Alemanha, quando publicou o romance que projetou no mundo o esprito soturno e desesperanoso da Guerra Fria. E no declarou a profisso verdadeira ao lanar a novela  o que, claro, deu ares de descoberta  informao quando ela veio  tona. Tive raiva porque percebi que dali em diante eu sempre seria rotulado como o espio que virou escritor e no como um autor, escreve ele em um novo prefcio redigido para a edio comemorativa de meio sculo da narrativa, que sai no Brasil pela Editora Record.

Percepo errada. Passados 50 anos do livro, outros 23 romances, oito livros filmados e o nono a caminho (O Homem Mais Procurado, programado para estrear em 2014, com Philip Seymour Hoffman no papel do protagonista), Le Carr  sim reconhecido como um autor de histrias de espionagem, o maior deles. Mas se no h nenhum fato real relatado em O Espio, como o autor reafirma at hoje, a ambientao  fartamente alimentada pela experincia de uma dcada de Le Carr na inteligncia britnica em territrio alemo. A Berlim em que Leamas ganhou vida era um paradigma de loucura humana e um paradoxo histrico. Assisti ao progresso do Muro do arame farpado aos blocos de concreto; vi as muralhas da Guerra Fria se erguendo das cinzas ainda quentes da guerra aberta, testemunha ele na abertura da nova edio. Um nico ponto derruba a tese da denncia embutida: o fato de o livro ter sido submetido, antes da publicao, ao Servio Secreto Britnico. E liberado.

Muito antes de entrar para o mundo do Servio Secreto eu j possua um instinto para a fico que me tornava um duvidoso coletor de fatos, continua o escritor em seu prefcio. Nunca fui um grande crebro da espionagem. Nem um minicrebro da espionagem. Em vez disso, se tornou o criador de uma famlia de gnios da investigao que humanizaram a figura impvida e intocvel do agente secreto (os ninjas medievais j alimentavam o mito) com personagens cercados de crises de conscincia, de sentimentos dbios e bebida nem sempre de primeira  um contraponto  figura eternamente bem servida de James Bond, que se tornou fenmeno no gnero na mesma poca, embalado pelos ternos bem cortados em Savile Row, rua de Londres.

 Um homem com ares de militar, meia-idade, derrotado, com uma capa de chuva manchada pedindo o mximo de scotch que um punhado de moedas estrangeiras colocadas num balco de bar de aeroporto poderia pagar. Essa viso fez nascer Alec Leamas, o anti-heri que Le Carr, passou a vida negando ser seu alter ego e interpretado dois anos depois de sua criao por Richard Burton no cinema.

Hoje, com dentes melhores, mais cabelos e um terno mais interessante, um homem como esse (o chefe de Leamas) pode ser visto explicando a guerra ilegal do Iraque ou justificando tcnicas medievais de tortura como meio preferencial de interrogatrio no sculo XXI, observa o autor, adiantando um dos temas do livro que lana agora com a edio comemorativa de sua obra-prima. Uma Verdade Delicada, que o jornal londrino Times classificou como exemplar do que h de mais engenhoso na obra recente de Le Carr, tem cerca de 350 pginas e conta em toada cinematogrfica a histria de Christopher Probyn, funcionrio pblico britnico de meia-idade enviado para uma misso secreta a Gibraltar em nome da coroa britnica, numa operao antiterror com desfecho bastante violento. O pano de fundo? A Guerra do Iraque, de quem Le Carr foi um dos grandes crticos, como  hoje da priso do ex-funcionrio da CIA Edward Snowden, que, segundo ele, deveria ser condecorado. O que eu aprendi ao longo dos ltimos 50 anos?, pergunta dos altos de seus 82 anos. Parando para pensar, no muito. Apenas que a moral do mundo do Servio Secreto  muito parecida com a nossa.


10#3 OS FILMES QUE VOC NUNCA VER
Projetos inacabados de cineastas como Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola vm  luz pelas mos de seguidores, e bastidores das produes so contados em novo livro
Ivan Claudio

As filmagens da comdia Somethings Got To Give, ltimo trabalho de Marilyn Monroe, foram marcadas por interrupes, mudanas constantes no roteiro, surtos de paranoia e ausncias da estrela no set. E tambm por boas surpresas. Ao gravar a famosa cena da piscina, a bombshell decidiu atuar totalmente nua para um grupo de fotgrafos  seu objetivo era ganhar a capa das revistas e desviar o foco de sua rival, Elizabeth Taylor. E foi o que aconteceu. Mas de nada adiantou. Refm de drogas e tranquilizantes, Marilyn foi encontrada morta em sua cama dois meses depois desse episdio escandaloso para a poca. Somethings Got To Give nunca veio  luz e como essa produo uma centena de ttulos de grandes diretores, com potencial para marcar a histria do cinema, teve o mesmo destino. Foram abortados no estgio de roteiro, pr-produo, filmagens ou at no momento de edio, s vezes tendo consumido dcadas de pesquisa e preparao, caso de Napoleo, mastodonte cinematogrfico de Stanley Kubrick, que vai ser transformado em srie pela HBO, com produo de Steven Spielberg. Numa poca em que as boas ideias mostram-se escassas, a empreitada do diretor de Lincoln abre um horizonte para os estdios e a perspectiva de tirar esses projetos do limbo. Mas no redime a sucesso de fracassos, j que, mesmo terminadas, as novas produes no suprem a lacuna do original, como sugere o ttulo do livro The Greatest Movies Youll Never See (Os Maiores Filmes Que Voc Nunca Ver), que acaba de ser lanado na Inglaterra e na Frana. Organizado pelo crtico Simon Braund, da revista inglesa Empire, rene mais de 50 projetos de mestres como Orson Welles, Federico Fellini, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock e Francis Ford Coppola, que permaneceram como sonho na mente de seus realizadores.

Escrito em ordem cronolgica e na forma de longos verbetes, o estudo mostra que Napoleo no era uma obsesso apenas de Kubrick. Em 1920, Chaplin quis interpretar o imperador francs numa trama que apostava na hiptese de que ele havia fugido da ilha de Santa Helena enganando a guarda britnica com o uso de um ssia. Aps dez anos sem conseguir viver o papel, Carlitos escalou James Cagney, conhecido pelos filmes de gngsteres, para a empreitada. Na sua autobiografia, Cagney lembra que passou um dia na manso do diretor e recusou o convite de forma irredutvel. Ele achou Chaplin entediante, disse Simon Braund  ISTO. Fala-se aqui de projetos ambiciosos e a teimosia dos cineastas no raro geniais acaba pesando no naufrgio desses filmes. Fellini, por exemplo, j estava com os cenrios armados nos estdios Cinecitt para rodar Il Viaggio de G. Mastorna, com Marcello Mastroianni, e largou tudo por no conseguir escrever um final para a histria do violoncelista que se v morto aps um acidente de avio.

Conhecido pela coleo de trabalhos abandonados  o livro seleciona cinco , Orson Welles chegou a filmar, a partir de 1959 e durante mais de uma dcada, horas e horas de sua adaptao de Don Quixote, de Miguel de Cervantes. Os produtores torceram o nariz para as andanas do protagonista com Sancho Pana numa Espanha ps-hecatombe nuclear. Ao contrrio, Alfred Hitchcock, listado com dois ttulos, teve Kaleidoscope vetado em 1967 porque os estdios acharam que ele ia queimar o seu filme.

O roteiro, sobre um criminoso com fobia por gua, abusava de cenas de nudez e seria rodado fora de estdios, no estilo da nouvelle vague. Nada se compara, contudo, ao descontrole do diretor francs Henri-Georges Clouzot, que transformou em tortura o set de LEnfer, sobre um homem que enlouquece de cimes. O ator Serge Reggiani ficou doente e, com a equipe sendo reduzida aos poucos, Clouzot teve um fulminante ataque cardaco.

A morte, obviamente,  outro motivo do engavetamento de muitos ttulos, como Leningrado, de Sergio Leone, e Nostromo, de David Lean, baseado no livro de Joseph Conrad. Depois do oramento, razo principal de a maioria dos projetos ser abandonada, alinham-se tambm outros fatores, como disputas legais, diferenas criativas e desencontro de agendas, afirma Braund, que acha fascinante a retomada de alguns deles  embora preveja um desastre nessas tentativas. Ele s no avaliza a filmagem de Brazzaville, continuao infeliz de Casablanca, parada desde 1943. Rick (personagem de Humphrey Bogart)  um agente secreto americano e seu cinismo e corao partido revelam-se pura encenao, uma das piores ideias j imaginadas.


10#4 EM CARTAZ  DVD - UMA IMERSO EM "BREAKING BAD"
por Ivan Claudio

Antes de seu esperado desfecho, marcado para o dia 27 no canal AXN, e de sua estreia na tev aberta em janeiro, pela Rede Record, a cultuada srie Breaking Bad ganha edio de colecionador, empacotada em uma caixa com 21 CDs. Foram reunidas as cinco temporadas com os 62 episdios da produo lanada em 2008, que se despede dos espectadores com o recorde de srie mais bem avaliada no gnero. A trajetria do ex-professor de qumica Walter White, que se transforma em um perigoso traficante de metanfetamina ao 
 se descobrir vtima de um cncer de pulmo, consagrou o ator Bryan Cranston ( dir.), recentemente indicado ao Globo de Ouro. Ele rouba a cena tambm nas nove horas de extras da temporada final, com material suficiente para manter acesa a curiosidade dos fs da fabulosa criao de Vince Gilligan.

+5 curiosidades sobre a srie
Consagrao
 Bryan Cranston (foto) foi includo na lista das personalidades do ano da revista americana Time

Segunda opo 
 Os produtores no acreditavam na empatia do ator. Preferiam John Cusack no papel do professor de qumica

Salvo da morte 
 O personagem de Jesse, parceiro de Mr. White, ia morrer na primeira temporada. A atuao de Aaron Paul o salvou

Gria Sulista
 O ttulo da srie se refere a uma gria do sul dos EUA usada para dizer que uma pessoa escolheu um caminho errado na vida

Azaro
 Quando o projeto foi oferecido aos produtores, eles disseram que nunca tinham visto um contedo mais inapropriado para o pblico televisivo


10#5 EM CARTAZ  LIVROS - FUTURO RECENTE
por Ivan Claudio

Um dos pais da literatura cyberpunk, William Gibson costuma dizer que o futuro j chegou, s no est uniformemente distribudo. Territrio Fantasma (Aleph) se passa no presente, ou melhor, no passado recente, durante os primeiros impactos da Guerra do Iraque, pano de fundo das investigaes de uma jornalista especializada em arte. O livro  lanado junto com Reconhecimento de Padres, da mesma trilogia Blue Ant.


10#6 EM CARTAZ  ARTE - BANANAS PARA DAR E VENDER
por Ivan Claudio

Aps assistir  pea O Rei da Vela, no Teatro Oficina, em 1968, o artista plstico paulista Antonio Henrique Amaral teve a ideia de debochar da ditadura pintando bananas verde-amarelas.  medida que o regime foi recrudescendo, elas passaram a ser amarradas por cordas, atravessadas por garfos, em violentas naturezas-mortas. Essas duas sries, Brasiliana e Campos de Batalha, so destaques na retrospectiva de sua obra em cartaz na Pinacoteca do Estado, em So Paulo, at 23/2. A exposio rene 160 pinturas e obras em papel que abrangem desde os desenhos e gravuras dos anos 1950 e 1960 at os trabalhos mais recentes. Paralelamente, a Caixa Cultural exibe at 16/2 uma vasta reunio de sua obra grfica.


10#7 EM CARTAZ  MSICA - UM DISCO MUITO CHIC
por Ivan Claudio

Um dos msicos mais influentes do pop, o guitarrista americano Nile Rodgers deixou a sua marca em lbuns como Like a Virgin, de Madonna, e Lets Dance, de David Bowie. Ele andava um pouco esquecido at ser convidado pelo duo francs Daft Punk a participar do arrasa-quarteiro Get Luck, uma das canes mais executadas do ano. Foi a deixa para o msico lembrar a sua carreira no CD duplo The Chic Organization, uma antologia de faixas que produziu para outros cantores e, especialmente, dos sucessos de sua prpria banda. A seleo de 25 faixas inclui Le Freak, Everybody Dance, I Want Your Love e Good Times, que marcaram o auge da disco music.


10#8 EM CARTAZ  AGENDA - YAYOI KUSAMA/VERSO/MAURICE PIALAT
Conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

YAYOI KUSAMA
(CCBB, Rio de Janeiro, at 20/1)
110 pinturas, desenhos, esculturas, vdeos e instalaes da artista japonesa, obcecada por bolinhas

VERSO
(Instituto Tomie Ohtake, So Paulo, at 9/2)
A exposio rene mais de 100 desenhos do artista Nelson Felix, mostrando o seu processo de criao, e uma instalao feita de mrmore, ouro e projeo de vdeo

MAURICE PIALAT
(CCBB, So Paulo, at 29/12)
Mostra com todos os filmes do cineasta francs, morto h dez anos. Um dos destaques  ?Van Gogh?, com Jacques Dutronc


10#9 ARTES VISUAIS - O PERCURSO DOS SIGNOS
Leis da comunicao e da semitica do o tom da exposio que abre o ano de comemoraes dos 40 anos da Galeria Luisa Strina
por Paula Alzugaray

Secret Codes/ Cdigos Secretos/ Galeria Luisa Strina/ at 22/2/14

MISTRIO - Quad 1, pea de Samuel Beckett para a televiso,  uma obra que se vale do hermetismo do texto

Antes do verbo, h a protoescrita. Antes que a linguagem se forme, articulada pelas convenes sociais, h apenas a inteno de comunicar. O grito gutural.  com os rabiscos e os desenhos guturais da artista feminista americana Mary Beth Edelson que se inicia o circuito lingustico de Secret Codes, exposio coletiva organizada para celebrar o 40 aniversrio da galeria Luisa Strina, em So Paulo.  apontando para o carter espontneo, imediato, original, livre e ilegvel de certas escritas que o curador espanhol Agustn Prez Rubio d incio a um roteiro expositivo pelos diversos estgios dos signos e dos cdigos na vida e na cultura contempornea. 

 Cartas, cartazes, planilhas, pginas de livros e outdoors so os suportes da maioria dos trabalhos expostos. Esta , afinal, uma exposio sobre os sistemas de comunicao. Da protoescrita de Mary Edelson e do artista autista Christopher Knowles, avanamos para a segunda fase dos cdigos, no uso crtico que artistas como Antoni Muntadas, Dora Garcia, Bernardo Ortiz ou Anna Maria Maiolino fazem deles, em sua aplicao no contexto da publicidade, da mdia, da literatura ou da poesia.

EM SEGREDO - Secret Poem, de Anna Maria Maiolino,  uma carta secreta da srie Mapas Mentais 

O percurso dos signos passa ento pelas mensagens cifradas de Cildo Meireles nas notas de dinheiro, em sua ampla srie Insero em Circuitos Ideolgicos, at chegar aos textos de complexidade indecifrvel. Os cdigos secretos. Aqui est, por exemplo, um vdeo de Dora Garcia sobre um grupo de estudo do livro Finnegans Wake, de James Joyce, que leva 11 anos para completar a primeira leitura da obra. Ou a abstrata pea de Samuel Beckett para a televiso, Quad 1.

Talvez a nica lacuna marcante da exposio seja no entrar no territrio dos algoritmos, mas o curador optou realmente por um recorte histrico. Com trabalhos que datam dos anos 1960 at hoje, a exposio apresenta obras seminais da histria da arte conceitual, como uma pintura da srie Today, do artista japons On Kawara, pela primeira vez exposta no Brasil.


10#10 ARTES VISUAIS  ESTANTE - O BUZINAO
por Paula Alzugaray

Klaxon em Revista/ Vrios Autores/ Cosac Naify/ ICCo/ R$ 90
 bastante sintomtico que o primeiro texto da primeira edio da revista Klaxon tenha sido publicado em francs. Embora o famoso mensrio de arte moderna, editado entre 1922 e 1923, em So Paulo, tenha refletido a vontade de seus editores de se contrapor aos cnones passadistas de uma Europa acadmica, era na Frana que, naquele momento, ganhavam terreno os movimentos vanguardistas de renovao esttica. Em Paris, em 1917, a apenas cinco anos do lanamento de Klaxon, Marcel Duchamp se apropriara de um urinol de porcelana, intitulara Fonte e assinara R.Mutt. O acontecimento foi incensado no editorial do nmero 1 da revista. Segundo a redao, a revista nascia na era de Mutt, de Carlito, era do riso e da sinceridade.  sintomtico, tambm, que uma revista que surgia para afirmar uma linguagem brasileira adotasse como ttulo o nome de um produto importado. Klaxon era uma famosa marca americana de buzinas para automveis. Esses dois sintomas, na verdade, traduzem bem o que foi o modernismo brasileiro: o impulso de devorar, digerir e reprocessar as influncias da cultura europeia, afirmando uma identidade brasileira a partir da miscigenao cultural. 

 Essa viso do que foi a Klaxon  possvel hoje graas  reedio integral dos nove nmeros da revista em fac-smiles feitos a partir dos originais, mantidos na Biblioteca Brasiliana Jos e Guita Mindlin, da USP. Coeditada pela Cosac Naify e ICCo (Instituto de Cultura Contempornea), a caixa Klaxon em Revista contm ainda um dcimo nmero, concebido pelos artistas contemporneos Maril Dardot e Fabio Morais como um encarte extratexto. Os extratextos eram partituras e desenhos encartados na Klaxon, produzidos especialmente por jovens artistas como Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos, participantes da Semana de Arte Moderna de 22. A revista Klaxon foi a primeira ao ps-Semana de 22, realizada pelo mesmo grupo que subiu ao palco do Theatro Municipal de So Paulo, produzindo um autntico buzinao na cultural local. Ao longo de quase um ano, reuniu mensalmente poemas, crnicas e resenhas de autores como Mrio de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida e Sergio Buarque de Hollanda. Desapareceu em fevereiro de 1923, para alvio dos tradicionalistas de planto, vtima da falta de engajamento de anunciantes. Um mal das revistas culturais, j quase centenrio no Brasil.

Divulgao Cosac Naify e ICCo

